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Ao princípio há um gesto

Fevereiro 17, 2017
SOVIET UNION. Estonia. Tallinn. 1973. Cellulos industry. Training for dance championship. Foto Cartier-Bresson

SOVIET UNION. Estonia. Tallinn. 1973. Training for dance championship. Foto Cartier-Bresson

Quando os apoiantes do governo de Kerensky garantiram que não havia nenhum partido na Rússia com capacidade de tomar o poder e fazer diferente, Lénine tomou a palavra e garantiu que havia: os bolcheviques queriam tomar o poder. Até este momento apenas haviam vagas possibilidades inscritas na história. A Rússia estava numa profunda crise e farta da guerra: o povo queria paz, os camponeses queriam terra e os operários queriam uma vida digna. Mas as condições sociais existentes não determinam, por si só, o que poderá acontecer num determinado momento. Elas apenas fornecem parte das condições em que se desenrola a luta política. Sobre isso é preciso criar um sentido, impor uma ideia hegemónica, produzir sujeitos que possam fazer a mudança. Marx escreveu “Na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel” que o proletariado é “uma classe radicalmente acorrentada, uma das classes da sociedade burguesa que não pertence à sociedade burguesa, uma ordem que causa a dissolução de toda a ordem, uma esfera que tem o caráter universal em virtude do seu sofrimento universal e que não se arroga a nenhum direito específico, porque não é vítima de nenhuma injustiça específica, e sim da injustiça total, que não pode mais invocar um direito histórico e sim um direito humano, que não se coloca em antagonismo absoluto em relação aos seus pressupostos – uma esfera, enfim, que não pode emancipar-se sem libertar-se de todas as outras esferas da sociedade e, ao fazê-lo, libertar todas as esferas elas próprias; que, em resumo, como representa a total destituição de toda a humanidade, só se pode redimir através da redenção de toda a humanidade. O proletariado representa a dissolução da sociedade enquanto ordem especial”. Mas para o proletariado cumprir essa missão não basta respirar é necessário saber que existe e querer traçar esse caminho. Uma pedra cumpre a lei da gravidade sem pensar, as pessoas estão na história movidas pelos seus próprias ideias e convicções. Para haver um acontecimento que rompa com a ordem existente e crie um sujeito histórico é preciso existir alguém fiel a esse acontecimento que, numa determinada situação, se torna sujeito de uma ruptura. São os acontecimentos que criam as suas próprias condições de existência. Antes deles existirem eles não estavam inscritos na situação. Uma situação abre para um conjunto diversificado de possibilidades. Um revolução refaz o passado, muda o presente e traça um futuro. É como uma paixão: cria as suas próprias condições de existência. A partir de um encontro fortuito, faz-se um gesto que transcende uma situação e cria uma nova realidade.  Quando alguém se apaixona e fala com a pessoa que ama e estabelece uma genealogia do que o fez gostar, transforma tudo o que parecia casual num caminho com sentido. A revolução é esse momento de ruptura que cria um novo sentido. Aquilo que a inaugura é um gesto. E foi isso que Lenine fez assumiu que era possível vencer onde outros não viam senão derrota.

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Estratégia de comunicação do Podemos

Dezembro 13, 2015

“Claro que Podemos – De La Tuerka a la esperanza del câmbio em España”, de Ana Dominguez e Luis Giménez é um livro que recolhe um conjunto de depoimentos, análises e textos sobre a importância de fazer a comunicação como se fosse uma actividade militante, para se ser capaz criar sentidos compartilhados que possam construir uma mudança política. Num mundo em que as pessoas se encontram espartilhadas, os locais de sociabilização quase ausentes e que as ligações são líquidas, como explica Zygmunt Baumant, a comunicação é o grande instrumento de sociabilização colectiva. Para o Podemos a política cria-se no momento em que se define um inimigo, isso implica a produção de um campo social de aliança e um sujeito para a transformação no, exacto, momento em que se produz uma hegemonia. A hegemonia é a capacidade de transformar uma exigência particular numa ruptura social com significado universal. No fundo aquilo que, usando as categorias de Rancière, permite passar da polícia à política: o momento em que a parte dos sem parte toma a palavra, no pressuposto da igualdade, e consegue fazer um evento que produz uma maior igualdade.  “La gente cree que se milita en los partidos o en los colectivos políticos, pero no es verdade, la gente milita en los medios de comunicación. La gente con cierto compromisso, con cierto interés político, asume como referencia um medio, la gente es de La Razon, El País, La Cadena Ser, La Cope, o Intereconomia, mucho mas que de los partidos,  porque al fin y al cabo son los medios que construyen los discursos”, diz Luis Giménez na introdução do livro.  Quando não há essas alternativas, como em Portugal, a “gente” não tem produção da possibilidade de uma hegemonia alternativa.

 

Feras louras

Março 2, 2014

Há quem confunda revoluções com violência. A maioria das rupturas históricas nasceram com dor: a violência é parteira da história, já dizia o outro. Mas nem toda a violência é revolucionária. Hitler e Mussolini protagonizaram movimentos de violência feitos pelas massas. A estratégia de assalto ao poder passou pela ocupação e pelos combates de rua. Mas aquilo que erigiram não pretendia dar o poder a todos, mas reservá-lo para si. Os néscios que confundem a violência com ruptura revolucionária,  caem numa estetização da política que não significa uma política nova. Pelo contrário, o nacionalismo é destruidor de qualquer criação de um momento de igualdade. Nada é igual perante o nacionalismo: há sempre um “nós” e uns “outros”. O poder não é para toda a população é apenas para aqueles que são ungidos pela nação. Não é de estranhar que a primeira medida do novo governo da Ucrânia tenha sido o de banir a língua falada preferencialmente por metade da população: os outros, os russos. Infelizmente, o nacionalismo mata a inteligência, mesmo daqueles que a ele reagem, faz que a resposta dos outros caia na mesma escalada de irracionalidade nacionalista. Quando a oposição justa seria entre um povo e um governo corrupto, assistiu-se ao ascenso do nacionalismo radical. Quando o seu combate devia passar pela denúncia da suas características fascistas, caiu-se na afirmação de uma outra nação. Estamos num cenário em que na cabeça das pessoas já não existem proletários , nem capitalistas, mas apenas nações que se digladiam pelas suas áreas de interesse. Recuamos 100 anos, estamos à beira da repetição da guerra de 1914-1918, mas com outras armas. A única coisa que podemos prever é que a guerra mundial seguinte, a esta, será feita com paus e pedras.

Nietzsche dizia que a humanidade estava amarrada pelo cristianismo e pelo sentimento de culpa, os homens estavam mansos e castrados. Mas para além das fronteiras restava, para ele, um bando de gente plenamente viva, a quem chamava “feras louras”-  homens capazes de assolar inimigos, invadir fronteiras e que regressariam para casa, vindos “de orgias de assassinatos, incêndios, estupros, torturas, felizes e em paz consigo mesmo”.  A ideia, tão agrado de uma certa pequeno-burguesia radical, que expulsa o tédio pela a afirmação da violência, baseia-se na concepção que é possível, como lamentava, sofrendo, o escritor Isaac Babel, lutar pela luz, sem ter nada para se iluminar. Raramente a violência é messiânica e possui, como profetizava Benjamin, a capacidade de criar algo a partir de uma ruptura: “O carácter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma actividade: abrir caminho. A sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte que qualquer ódio.”. Na maior parte das vezes, quando se faz de bárbaro, mesmo que loiro como um ucraniano, apenas se conseguem muitas barbaridades e mortos. Não existe nada de inteligente que possa vir nas botas cardadas dos herdeiros das forças que se bateram ao lado dos nazis.

Liquidação total

Janeiro 18, 2013

Para quê aceitar o presente quando é necessário fazer uma ruptura? Para quê viver neste mundo quando é possível sonhar com outro? Para quê esconder as palavras quando é desejável uma revolução? Para quê ambicionar a eternidade se podemos jogar tudo apenas num gesto?

Este blogue vai durar quatro anos. Num momento em que tudo é mau e que pior parece ser apenas o que nos reserva o amanhã, aqui se vai escrever a partir de  uma ideia. E afirmar que é possível transcender o que somos, desde que não aceitemos as baias daquilo que nos garantem ser o possível.

Trata-se naturalmente de uma comemoração, mas não é uma placa de pedra. É uma vontade de carne e osso.

Sejamos realistas, exijamos o impossível.