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Feras louras

Março 2, 2014

Há quem confunda revoluções com violência. A maioria das rupturas históricas nasceram com dor: a violência é parteira da história, já dizia o outro. Mas nem toda a violência é revolucionária. Hitler e Mussolini protagonizaram movimentos de violência feitos pelas massas. A estratégia de assalto ao poder passou pela ocupação e pelos combates de rua. Mas aquilo que erigiram não pretendia dar o poder a todos, mas reservá-lo para si. Os néscios que confundem a violência com ruptura revolucionária,  caem numa estetização da política que não significa uma política nova. Pelo contrário, o nacionalismo é destruidor de qualquer criação de um momento de igualdade. Nada é igual perante o nacionalismo: há sempre um “nós” e uns “outros”. O poder não é para toda a população é apenas para aqueles que são ungidos pela nação. Não é de estranhar que a primeira medida do novo governo da Ucrânia tenha sido o de banir a língua falada preferencialmente por metade da população: os outros, os russos. Infelizmente, o nacionalismo mata a inteligência, mesmo daqueles que a ele reagem, faz que a resposta dos outros caia na mesma escalada de irracionalidade nacionalista. Quando a oposição justa seria entre um povo e um governo corrupto, assistiu-se ao ascenso do nacionalismo radical. Quando o seu combate devia passar pela denúncia da suas características fascistas, caiu-se na afirmação de uma outra nação. Estamos num cenário em que na cabeça das pessoas já não existem proletários , nem capitalistas, mas apenas nações que se digladiam pelas suas áreas de interesse. Recuamos 100 anos, estamos à beira da repetição da guerra de 1914-1918, mas com outras armas. A única coisa que podemos prever é que a guerra mundial seguinte, a esta, será feita com paus e pedras.

Nietzsche dizia que a humanidade estava amarrada pelo cristianismo e pelo sentimento de culpa, os homens estavam mansos e castrados. Mas para além das fronteiras restava, para ele, um bando de gente plenamente viva, a quem chamava “feras louras”-  homens capazes de assolar inimigos, invadir fronteiras e que regressariam para casa, vindos “de orgias de assassinatos, incêndios, estupros, torturas, felizes e em paz consigo mesmo”.  A ideia, tão agrado de uma certa pequeno-burguesia radical, que expulsa o tédio pela a afirmação da violência, baseia-se na concepção que é possível, como lamentava, sofrendo, o escritor Isaac Babel, lutar pela luz, sem ter nada para se iluminar. Raramente a violência é messiânica e possui, como profetizava Benjamin, a capacidade de criar algo a partir de uma ruptura: “O carácter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma actividade: abrir caminho. A sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte que qualquer ódio.”. Na maior parte das vezes, quando se faz de bárbaro, mesmo que loiro como um ucraniano, apenas se conseguem muitas barbaridades e mortos. Não existe nada de inteligente que possa vir nas botas cardadas dos herdeiros das forças que se bateram ao lado dos nazis.

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